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domingo, 31 de outubro de 2010

EMBUSTE DE CANDIDATO ?


Ontem assistimos a uma dramática tentativa presidencial de disfarçar um enorme flop político com um embuste, nem sabemos se ingénuo, se desesperado.

De facto, o Presidente da República, sentindo pulsar em si ímpetos de candidato, resolveu fazer um número com o Conselho de Estado, desde logo inquinado por ter suscitado uma estranha ambiguidade: estávamos perante uma sede de aconselhamento por parte de Cavaco que seria satisfeita por tão circunspecto órgão ou perante uma grosseira tentativa de pressão política, mesmo que de generosos objectivos?

Se estávamos perante um pedido de conselho, qual era ele? Se estávamos perante uma tentativa de pressão, em que preceito constitucional se outorga ao Conselho de Estado uma tal competência, uma tal legitimidade?

Mas tudo isto se esvaziou como um balão furado, quando, ainda em plena reunião do Conselho de Estado, foi difundido por uma estação televisiva que o Governo e o PSD tinham chegado a acordo para a viabilização do orçamento. E em vez de engolir civilizadamente o flop, congratulando-se com o êxito das conversações, o Presidente, certamente impelido pela sua costela de candidato já declarado, fingiu que ainda não havia qualquer acordo quanto ao orçamento e apelou num palavreado entaramelado para que governo e PSD chegassem a um acordo até quarta-feira, quando não podia ignorar que esse acordo já fora alcançado.

Enfim, uma reunião de legitimidade duvidosa transformada num flop político, que se tentou disfarçar através de um embuste, desesperadamente destinado a transformar numa grande vitória aquilo que afinal não passou de uma enorme escorregadela.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O enxovalho de Praga

A Imprensa, as rádios e as televisões andam cada vez mais preocupadas com o folclore dos dias do que com a real importância dos factos. Cansaram-nos com os relatos do humor (santo Deus!) do dr. Cavaco; com a espórtula do distinto casal aos músicos de rua na ponte Carlos; com as jovialidades dos transbordos de automóveis, o percurso dos autocarros, os "kits" com comida para as personagens consideráveis. No que se refere ao enxovalho, à injúria, à humilhação com que o Presidente da República Checa, por duas vezes, mimoseou o seu convidado, e o que o seu convidado representava, a Imprensa, as rádios e as televisões limitaram-se a bocejos laterais. E o dr. Cavaco perdeu a memorável ocasião de provar ser "o Presidente de todos os portugueses." Vaclav Klaus, Presidente da República Checa, e antigo e experimentado governante, excedeu, em grosseria, tudo o que se presume dever ser a compostura canónica de um estadista, e, com surpreendente rudeza, inquiriu se os portugueses não se sentiam nervosos com o défice de 8 por cento, facto que, com ele, jamais sucederia.
Sorridente, disperso e confuso, o dr. Cavaco murmurou não ser governante, admissão entendida por Vaclav como fraqueza ou pusilanimidade, pelo que voltou à carga, noutra cerimónia de Estado. Nem um escasso protesto, nem a mais diminuta desaprovação, nem a mais exígua frase indignada. Mais tarde, o extraordinário dr. Cavaco, contemporizador e tranquilo, resignava-se à ignomínia (porque de ignomínia se tratou) esclarecendo que o Presidente checo era, por natureza, "pouco ortodoxo." O dr. Cavaco admitia a incivilidade e a infinita grosseria do checo; porém, graciosamente, engoliu o insulto (além de outros, reiterados como um ressentimento absurdo) e confinou-se à vergonha do silêncio comprometido.
Que levou o Presidente português a este comportamento tão pesaroso quanto desacreditante? Não se encontra explicação nem redenção para um acto que o envolve pessoalmente, infama a instituição que encarna e o país que representa. Dir-se-á: quis evitar um incidente diplomático. Nessa perspectiva, a ausência de reacção teria de ser entendida como exorbitante prudência, pois a gravidade das declarações de Vaclav Klaus não devia passar sem adequada e consistente resposta, tanto mais que a responsabilidade do incidente cabia, por inteiro, ao checo. O sorridente mutismo do dr. Cavaco saltou da conveniência momentânea para a conivência sem remissão.
A viagem a Praga é a arrepiante expressão de um novo género de actuação política e a cartografia de um jornalismo feito de frivolidades, desprovido do magnífico empenho de desvendar o outro lado das coisas..

BAPTISTA-BASTOS